Escrito por Mari 21.01.2005
O treinador do Flamengo, Júlio César Leal, nos revela seu percurso através de uma entrevista exclusiva realizada por Samba Foot. Descubra os detalhes do campeonato carioca 2005 e os objetivos do clube mais popular do Brasil para esta temporada.
Samba Foot
O que você fazia antes de se tornar o treinador do Vasco em 1983 ?
J.C Leal
Eu iniciei minha carreira com o futebol em 1972, com o Olaria, quando me formei na escola de educação física que prepara profissionais do futebol. Trabalhei de 1972 a 1975 na equipe profissional do Olaria como preparador físico e auxiliar técnico. Em 74 me tornei treinador, conforme manda a lei no Brasil. Minha primeira oportunidade para trabalhar como treinador foi em 76, no Clube de Regatas do Flamengo, dirigindo primeiramente, de 76 a 78, a categoria juvenil do Brasil. Em 79 fui promovido para a categoria de juniores, na qual fiquei até o meio de 82, quando o Flamengo me dispensou. Depois desses seis anos e meio fui para o Vasco. Em 82, assim como no primeiro semestre de 83, eu dirigi a equipe de juniores do Vasco, tendo minha primeira experiência como treinador da categoria profissional no segundo semestre daquele ano, neste mesmo clube.
Samba Foot
Considerando somente estes dez primeiros anos, você já tinha construido uma bela carreira, com ótimas experiências.
J.C Leal
Na minha passagem pelo Flamengo, por exemplo, considerei que o mais interessante foi o fato de eu ter trabalhado durante todo aquele tempo na maior época de ouro do Flamengo, que foi o período das conquistas a partir de 77 : 4 vezes campeão carioca, 5 vezes campeão brasileiro, campeão sul-americano e mundial. Eu era treinador da categoria de base, e muitos dos jogadores que foram formados comigo nos anos anteriores serviram à equipe principal e à Seleção brasileira, como foi o caso do Mozer, por exemplo. Além disso, tivemos 3 títulos estaduais aqui no Flamengo, e um no Vasco. Apesar de considerarmos importantes os títulos nestas categorias, eles não são os principais objetivos. Já na categoria profissional, o objetivo é o título. Na categoria de base o grande troféu que nós ganhamos, o grande reconhecimento, é ver o jogador que preparamos chegar à equipe principal. Mas, nem por isso, não deixamos de ganhar alguns títulos.
Samba Foot
Do que você mais gosta na profissão de treinador? O que mais te motiva ?
J.C Leal
O que mais me motiva é o fato de conhecer novas pessoas, fazer amigos, conhecer novos lugares e culturas diferentes. O futebol nos dá a possibilidade de fazer tudo isso porque nós acabamos tendo uma vida cigana. São justamente estes fatores que nós levamos de mais bonito do futebol : os amigos que fizemos em diversas partes do mundo, apesar das diferenças de idioma ; as culturas que nos dão uma visão mais global e que podem sempre nos ajudar quando precisamos de idéias mais eficientes e modernas do que as que temos aqui no nosso país.
No futebol, a maior alegria que temos é a capacidade que o atleta e o treinador têm de levar as pessoas a momentos de relaxamento, de entretenimento, e em alguns casos até de êxtase, quando ocorrem as conquistas, mesmo depois de uma semana difícil de trabalho dos torcedores, de tensão, de estresse, de cobrança.
Nesses instantes as pessoas são levadas a expulsar tudo aquilo que está incomodando ou atrapalhando suas vidas, tudo o que elas estão vivenciando, para viver grandes momentos de alegria, ou até mesmo de felicidade, que é uma alegria continuada.
Samba Foot
O que deve ser muito gratificante para vocês, profissionais do futebol, não é mesmo?
J.C Leal
É muito gratificante… Aqui no Brasil nós temos um povo muito sofrido, que vive diante de muitas dificuldades e adversidades. Mas quando nós damos à uma nação, como a rubro negra, formada por mais de 30 milhões de pessoas, 90 minutos de alegria e de descontração, ficamos muito felizes. Isso nos faz superar e vencer os nossos próprios limites porque temos vontade de perpetuar as vitórias, apesar do fato de no futebol as vitórias constantes serem muitos difíceis.
Samba Foot
Mas isso tudo é, verdadeiramente, uma motivação constante…
J.C Leal
É uma motivação constante nós sabermos que por trás de uma atuação nossa há a possibilidade de existirem momentos de alegria e até mesmo de felicidade de uma legião de seguidores e amantes do rubro negro.
Samba Foot
Nas nossas fichas consta que você teve um percurso bem particular. Você treinou os Emirados Árabes Unidos, Trinidad, Tobago, a seleção sub 20 do Brasil, com a qual você se tornou campeão do mundo em 93. Seu último trabalho foi no Kasma Club, no Kwait. O que você acha de toda essa diversidade? Foi uma escolha pessoal ou tudo aconteceu ao acaso ?
J.C Leal
Desde garoto eu já sabia que o que eu queria fazer era me tornar treinador de futebol. E eu sempre soube que esta era uma vida de viagens e de mudanças constantes, já que esta é a cultura do futebol. Ainda assim, no início da minha carreira, eu trabalhei 5 anos no Olaria, 6 anos e meio no Flamengo, 2 anos e meio no Vasco. Nos Emirados Árabes, eu cheguei a trabalhar durante 3 anos em um clube.
Trabalhei também 3 anos e meio na Seleção, sendo treinador dos juniores e auxiliar do Parreira e depois do Zagallo na Seleção principal. Trabalhei 3 anos na Seleção brasileira, de 91 a 93, e foi justamente quando terminou a minha trajetoria junto às categorias de base que toda essa diversidade que você citou em relação à minha carreira começou. Eu não conseguia passar mais de um ano em nenhum clube, mas sempre fui consciente que isso faz parte da cultura do futebol aqui no Brasil.
Sempre temos muita cobrança, às vezes até no sucesso, como foi o caso do Esporte contra o Recife: eu tinha um contrato de um ano, estávamos invictos há 5 meses sem perder nenhuma partida, liderando o campeonato em busca de um tetracampeonato, e um problema qualquer incitou a minha demissão. No Coritiba também, no Paraná, eu estava fazendo um trabalho muito bom, já depois de 4 ou 5 meses : estávamos nos aproximando do líder ; saímos lá de trás e viemos recuperando, ganhamos um clássico e, de repente, eu fui mandado embora.
Eu acho que as coisas da minha vida passaram, depois de um período de estabilidade, a me levar realmente a lugares diferentes, o que me possibilitou ser quem sou hoje, me comunicar com as pessoas e dar uma outra visão de profissional de futebol, de um brasileiro inclusive, de um mineiro de nascimento e carioca por adoção. Então acho que passou a ser minha missão, depois de ter ficado tanto tempo trabalhando no mesmo lugar, mudar a cada ano uma, duas vezes, ou até mais. Não foi escolha minha não.
Samba Foot
Aconteceu…
J.C Leal
É… Na minha opinião, é preferivel permanecer no mesmo clube por muito tempo. Eu vejo muito mais vantagens para o clube e pra mim. Entretanto, esta é a cultura do futebol, e ela está cada vez mais acirrada. O que cabe a nós é respeitá-la, entendê-la e ir plantando para o futuro.
As vezes o futuro será colhido por outra pessoa, mas não tem problema. Nós, humildemente, vamos plantando as sementes que alguém haverá de colher. Se alguém não tivesse plantado nestes últimos anos eu também não estaria aqui colhendo nestes dias de hoje. « Risos… »
Samba Foot
Quais são os seus objetivos com o Flamengo nesta temporada ? Você está preocupado com a saída de jogadores como o Felipe, o Athirson e o Júlio César, principalmente porque o Flamengo ainda não encontrou substitutos à altura deles ? Ou você acha que este é só um detalhe ?
J.C Leal
Na verdade, da mesma forma que eu acho que é bom que o treinador permaneça muito tempo no clube, também penso que é bom para o jogador permanecer no clube muito tempo, porque ele vai se aperfeiçoando cada vez mais e tem a possibilidade de conhecer melhor cada detalhe. A tendência é que ele vai ficando cada vez mais produtivo. Há momentos, como foi este vivido em 2004, em que bons atletas foram convidados para jogar em outros clubes, e até mesmo em clubes de outros países. Logo, foi necessário fazer uma reformulação do elenco e do time também.
Este processo ainda está em andamento. Aos poucos vamos acrescentando um e outro, dentro de uma realidade que o Flamengo, através de seu presidente, em manifestação pública e a nós, estipulou de trabalhar dentro de um orçamento estabelecido anteriormente, pra poder pagar em dia ao invés de estar se lançando em sonhos que às vezes o impede de cumprir suas obrigações trabalhistas. Como estamos trabalhando dentro de uma certa restrição, fica mais difícil o alcance de jogadores de melhor nível. Estamos reforçando a equipe aos poucos, com o objetivo de dar à torcida do Flamengo a alegria que é própria dela e as conquistas que são comuns do futebol do Flamengo. Mas sempre contamos com o apoio da nossa torcida.
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